O Livreiro de Cabul, por Asne Seierstad »
“O vapor exala dos corpos nus. Mãos se movimentam em ritmo acelerado. Raios de sol entram furtivamente por duas portinholas no teto, conferindo um tom pitoresco a bundas, peitos e coxas. Os corpos na sala de banho quente só podem ser vislumbrados através do vapor, até que os olhos se acostumem com a iluminação mágica. Os rostos estão concentrados. Aquilo não é um prazer, é trabalho duro.
Em dois salões grandes há mulheres deitadas, sentadas ou em pé, se esfregando. Esfregam os corpos, umas às outras ou aos filhos. Algumas são gordas, parecendo saídas de uma pintura de Rubens, outras são magérrimas, as costelas salientes. Com grandes luvas de cânhamo caseiras esfregam as costas, braços e pernas umas às outras. Lixam a pele dura dos pés com pedra-pomes. Mães esfregam as filhas prontas para casar, examinando com atenção seus corpos. Não vai levar muito tempo para que as mocinhas com peitos de pomba tornem-se mães amamentando. Adolescentes grávidas ganham largas estrias após darem à luz precocemente. Quase todas as mulheres têm a pele estriada nas barrigas, por terem parido muito jovens ou com muita freqüência.”
Foram com esses dois parágrafos que retomei a leitura de O Livreiro de Cabul na página 187, após 13 meses. Era o livro que eu estava lendo (e adorando) antes de ir para a Inglaterra, mas decidi não levá-lo. Cheguei a pensar em retirar da biblioteca lá e seguir a leitura, mas só agora voltei a ele e terminei. Esse hiato não interferiu tanto no meu entendimento da história pois, nessa parte do livro, a autora relata mais histórias individuais. A descrição dos parágrafos acima já foram suficientes para me reambientar à narrativa. Não vi a autora quando ela passou por Porto Alegre, há um tempo, embora já tinha lido dela 101 dias em Bagdá (ótimo livro). E ainda há outras obras como essa me esperando na prateleira.